Uma nova pesquisa da Scripps Research, publicada na Science, revela os mecanismos moleculares por trás de como o útero detecta e responde às forças físicas durante o parto. Esta descoberta não só explica porque é que o trabalho de parto por vezes atrasa ou começa prematuramente, mas também estabelece as bases para melhorar os tratamentos para complicações na gravidez e no parto.
Os sensores de pressão do corpo
O útero se expande dramaticamente durante o crescimento fetal, atingindo o pico de pressão durante o parto. Os cientistas identificaram agora sensores especializados que interpretam estas forças e coordenam a atividade muscular. Ardem Patapoutian, cujo trabalho anterior lhe rendeu uma parte do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2021, liderou o estudo. Sua equipe descobriu que o corpo depende de sensores de pressão para traduzir sinais físicos em contrações coordenadas.
Esses sensores são canais iônicos construídos a partir de proteínas chamadas PIEZO1 e PIEZO2, permitindo que as células respondam à força mecânica. Os investigadores descobriram que estas proteínas desempenham papéis distintos mas complementares no trabalho de parto.
Dois sensores, um processo
PIEZO1 opera dentro do próprio músculo uterino, detectando o aumento da pressão à medida que as contrações se intensificam. Por outro lado, PIEZO2 está localizado nos nervos sensoriais do colo do útero e da vagina. Ele é ativado à medida que o bebê estica esses tecidos, desencadeando um reflexo neural que fortalece as contrações uterinas.
Juntos, esses sensores convertem alongamento e pressão em sinais elétricos e químicos, sincronizando as contrações. O estudo mostra que se um caminho for interrompido, o outro pode compensar parcialmente, garantindo a continuidade do trabalho.
O que acontece quando os sensores falham
Experimentos utilizando modelos de mouse confirmaram a importância desses sensores. Os ratos sem ambas as proteínas PIEZO exibiram pressão uterina mais fraca e partos atrasados. Isso mostra que a detecção baseada nos músculos e a detecção baseada nos nervos funcionam em conjunto. Quando ambos os sistemas foram desativados, o trabalho ficou gravemente prejudicado.
Investigações adicionais revelaram que a atividade PIEZO ajuda a regular a conexina 43, uma proteína que forma canais microscópicos entre as células musculares lisas. Esses canais permitem contrações coordenadas em vez de espasmos independentes. A sinalização PIEZO reduzida levou a níveis mais baixos de conexina 43 e contrações mais fracas.
Tecido humano confirma descobertas
A análise do tecido uterino humano mostrou padrões PIEZO1 e PIEZO2 semelhantes aos observados em ratos, sugerindo que um sistema comparável opera em humanos. Isto pode explicar problemas de parto marcados por contrações fracas ou irregulares que prolongam o parto.
As observações clínicas alinham-se com estes resultados; bloquear totalmente os nervos sensoriais por meio de epidurais pode prolongar o trabalho de parto. Isto confirma que o feedback nervoso desempenha um papel na promoção das contrações.
Implicações Futuras para a Assistência ao Trabalho
Esta pesquisa abre a porta para abordagens mais direcionadas para o manejo do trabalho de parto e da dor. Se os cientistas puderem ajustar com segurança a atividade do PIEZO, poderá ser possível retardar ou fortalecer as contrações quando necessário. Para aquelas em risco de trabalho de parto prematuro, um bloqueador PIEZO1 poderia complementar os atuais medicamentos relaxantes musculares. Por outro lado, a ativação dos canais PIEZO pode restaurar o trabalho de parto paralisado.
As descobertas também destacam a interação entre a detecção mecânica e o controle hormonal. A progesterona suprime a expressão da conexina 43, evitando que as contrações comecem cedo demais. À medida que os níveis de progesterona caem perto do final da gravidez, os sinais acionados pelo PIEZO podem iniciar o trabalho de parto.
Estudos futuros irão mapear as redes nervosas sensoriais envolvidas no parto. Diferenciar os nervos que promovem as contrações daqueles que transmitem a dor poderia levar a métodos mais precisos de alívio da dor, sem retardar o trabalho de parto.
“O parto é um processo onde a coordenação e o tempo são tudo”, diz Patapoutian. “Agora estamos começando a entender como o útero atua tanto como músculo quanto como metrônomo para garantir que o trabalho de parto siga o ritmo do próprio corpo.”
Esta investigação sublinha que a capacidade do corpo de sentir a força física é essencial não só para o toque e o equilíbrio, mas também para um dos processos mais críticos da biologia.


































